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Brasil ganha 600 mil microempreendedores durante a quarentena



A crise causada pela pandemia tem aumentado o número de demissões no país e empurrado mais brasileiros para o empreendedorismo.

Um dos termômetros que sinalizam esse movimento é o número de pessoas que viraram MEI (microempreendedor individual). Entre março, início da quarentena, e julho, 600 mil trabalhadores se tornaram MEIs, um crescimento de 20% em comparação com o mesmo período de 2019.


Em paralelo, só no segundo trimestre de 2020, 8,9 milhões de brasileiros perderam o emprego, segundo o IBGE. "Muitas pessoas tinham vontade de abrir um negócio próprio, e a pandemia acelerou essa motivação para empreender, tanto por necessidade quanto por oportunidade", diz Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae-SP.


Há também um movimento de formalização: pessoas que já atuavam como autônomas tiveram que virar MEI para emitir notas fiscais e continuar trabalhando. Os empreendedores por necessidade —aqueles que perderam o emprego ou outras fontes de renda— são a maioria dos que buscam qualificação no Sebrae. Os atendimentos no órgão triplicaram desde o início da quarentena e chegam a 15 mil por dia só no estado de São Paulo. "Eles têm muitas dúvidas sobre acesso a crédito, transformação digital do negócio e sobre a disciplina necessária para lidar com o dinheiro pessoal e da empresa", diz Poit.


O empreendedorismo no Brasil é motivado por vários fatores: muitos buscam ter mais liberdade, outros querem horários flexíveis. "Mas a necessidade é o fator mais comum, especialmente num cenário de pandemia", diz Daniel Duque, pesquisador da área de economia aplicada do IBRE/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).


Segundo Duque, o aumento na abertura de MEIs pode refletir também o fenômeno da pejotização dos trabalhadores, quando empresas passam a exigir que seus funcionários se tornem prestadores de serviço para evitar arcar com encargos trabalhistas. Transformar um hobby em negócio foi a alternativa encontrada pela advogada Laura Burity Salgado, 30, após ser demitida, em abril.


Entusiasta do universo da dança, Laura trabalhava na Bloch, multinacional australiana que fabrica artigos para a prática. Paralelamente, mantinha o blog sobre balé Nas Pontas, com loja online. Com a perda do emprego, ela passou a empreender em dose dupla: reformulou seu ecommerce de peças e acessórios para dança e passou a oferecer cursos e outros conteúdos online sobre o tema. Com o marido, Eduardo Daniel Salgado, 33, planejou a abertura de uma cafeteria no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.


Inaugurado há um mês, o Amar.go Café era um projeto antigo do casal que foi retomado às pressas na pandemia, já que ele, publicitário autônomo, tinha perdido quase todos os clientes com a crise. "Nós tínhamos o sonho de empreender, mas faltava coragem. A pandemia deu um empurrão para que nos dedicássemos ao próprio negócio em tempo integral", diz Laura. A família se mobilizou para que o casal pudesse empreender: emprestou dinheiro para a reforma do imóvel onde a cafeteria foi instalada, e a mãe de Laura confecciona peças de roupa que são vendidas no ecommerce, além de produzir pães para o café. Os resultados já estão aparecendo na loja online de Laura, que passou de um faturamento de R$ 800 para R$ 8.000 por mês —graças à diversificação na oferta de produtos, aulas virtuais de balé e ações em mídias sociais.


Para Elaine Pisaneschi, diretora financeira da empresa de auditoria e consultoria Crowe, o aumento no número de MEIs seguirá como uma tendência nos próximos meses. Além do impacto da crise, também há quem veja oportunidade de negócio na nova realidade imposta pelo distanciamento social, especialmente em segmentos como alimentação, entregas de produtos e prestação de serviços.



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